'Conseguimos garantir uma fluidez pela cidade. E isso não pode parar', promete Secretário de Cultura. Baile Charme de Madureira no Capanema, Jorge Aragão e homenagem a Ney Matogrosso dão sequência à festa este fim de semana
Show da Martinália no Palácio Capanema durante a semana de Arte do Rio de Janeiro
Num Rio de Janeiro que há dias vinha penando com a chuva, o bom tempo do último fim de semana trouxe de volta a disposição de cariocas e turistas para procurar programas ao ar livre. E o que não faltou, de sexta a domingo, foi opção em meio à Semana de Arte do Rio.
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Entre atrações, em boa parte gratuitas, como o Projeto Aquarius (que reuniu sábado o rapper Emicida e a sambista Leci Brandão à Orquestra Sinfônica Brasileira, na Praça Mauá), o Próxima Parada Samba (no Palácio Gustavo Capanema, com programação dedicada à memória de Beth Carvalho, juntando cinema, exposições, feira de vinil, discotecagem e rodas de samba), a iluminação cênica nos Arcos da Lapa, o Festival Panorama de dança (nos teatros Carlos Gomes e Nelson Rodrigues) e o Mimo Festival (que ferveu no domingo, no Circo Voador, com show do grupo de tuaregues Tinariwen), o Rio viveu dias de cultura e movimento como há muito não vivia.
— Na sexta, fui ao (Palácio) Capanema e, depois, ao show da Fafá de Belém, nos Arcos da Lapa. Também fui à (galeria) Gentil Carioca e ali na Praça Tiradentes. No dia seguinte, fui com meu filho ver os infláveis na Carioca e Cinelândia, depois no (bumba meu boi) Brilho de Lucas. Enfim, fiquei nervosa, com siricutico... e semana que vem tem mais! — festeja a cantora Lila, para quem o sentimento foi “o de circular na cidade como no carnaval, tipo carnaval fora de época”. — É incrível tirar as pessoas do digital e celebrar a coletividade fora das redes sociais, grande doença da nossa sociedade.
Público ocupa a Praça Mauá para acompanhar o Projeto Aquarius, que reuniu a Orquestra Sinfônica Brasileira, Leci Brandão e Emicida numa tarde de mistura de ritmos e gerações
Custódio Coimbra
Outra figura das ruas cariocas, o diretor e produtor Marcio Debellian comemorou a oportunidade de “a gente poder andar pelo Centro e estar seguro, sair do Capanema e ir andando para o Circo Voador, encontrar as pessoas no caminho”.
— Fui ver “Senhora dos Afogados”, do Teatro Oficina (no galpão Ação e Cidadania, na Gamboa), e ao Mimo, que estava lotado. Não consegui entrar, mas encontrei tanta gente divertida na fila... depois fui ver o espetáculo “Zaratustra: Uma transvaloração dos valores”, do Amir Haddad — conta. — Mas a pessoa tinha que ter uma agenda, porque era muita coisa! Havia uma profusão outras coisas acontecendo: Projeto Aquarius, ArtRio, Rio Gastronomia, Queerioca, Gentil Carioca, festa V de Viadão.... foi um fim de semana feliz e movimentado pela cidade.
Para o secretário de Cultura do município do Rio de Janeiro, Lucas Padilha, “o Rio é uma cidade de artistas o ano inteiro, vemos isso no carnaval, nas exposições“. Mas faltava, observa, algo como a Semana de Arte, “uma plataforma de integração dos circuitos culturais e a visão de que as praças são feitas para serem ocupadas com qualidade, com todos os públicos“.
— Vi muitas pessoas com deficiência, idosos, crianças às 22h na Praça Quinze, na Praça Tiradentes, ouvindo samba, blues, jazz, música eletrônica. Fora as exposições relevantes que abriram neste fim de semana e outras que abrem no próximo — diz. — Acho que foi uma experiência de multiplicidade, da cidade se multiplicando no Centro, e também uma experiência de educação patrimonial muito relevante, porque a gente só valoriza aquilo que, além de ser paisagem, é útil. Foi muito bonito ver as pessoas ocupando a Praça Tiradentes com aquela Solaroca, uma obra de arte do Opavivará, que recebeu uma roda de samba, e a Grande Festa Brasileira na Praça Tiradentes com os bois de Parintins (do Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro, o Crab).
‘Capital do ar livre’
Padilha diz que a Semana de Arte foi planejada há um ano e contou com muitos investimentos privados e da Prefeitura.
— Tivemos a Festa da Luz com as esculturas iluminadas, o Festival de Circo, o Festival Amir Haddad, que levou teatro para a Praça da Lapa. Foram vários conteúdos e linguagens culturais, como circo, teatro, dança, cinema, até outras coisas como gastronomia, arquitetura, esporte. São novas experiências de viver a cidade. O Rio é uma cidade do ao vivo, é a capital do ar livre — observa ele.
Com a perspectiva de dias tão bonitos quanto os do último fim de semana, a programação traz boas opções para os próximos dias. Na sexta, o Festival Panorama leva o Baile Charme Viaduto de Madureira ao Palácio Capanema — o mesmo que no sábado recebe Jorge Aragão para a roda do Próxima Parada Samba. Já no domingo, no Palco Lapa, Juliana Linhares, Linn da Quebrada, MC Tha, Melly, Tássia Reis e Xênia França se reúnem para novas leituras a músicas marcadas pela voz de Ney Matogrosso. E, de quinta a domingo, o Rio Gastronomia segue no Jockey Club com muitas opções de restaurantes e shows como os de Marcelo D2 e Blitz.
Idealizadora do Próxima Parada Samba (e filha de Beth Carvalho), Luana Carvalho diz ser “um acontecimento definitivo pra essa cidade o samba ocupar o Palácio Capanema”:
— É um espaço que sempre deveria ter sido do povo voltar a sê-lo — comemora. — Só tenho a agradecer pelo Próxima Parada Samba: aos que acreditam, fazem acontecer, e às milhares de pessoas que vieram e virão prestigiar a nossa história!
Show do grupo Tinariwen, domingo (20/09), no Circo Voador, dentro do festival Mimo
Divulgação/Rogério Von Krüger
Fundadora e CEO do Mimo Festival (que este fim de semana se muda para Olinda, Pernambuco), Lu Araujo conta que há bastante tempo não via o Rio com essa efervescência e as pessoas circulando pelas ruas, pelos espetáculos:
— E as pessoas terem ficado de fora (do Mimo, na fila, sem conseguir entrar num Circo Voador lotado), com tudo isso acontecendo simultaneamente, prova que as pessoas são interessadas, que elas querem conviver com essa cidade cultural, diversa.
Embora não haja um resultado numérico consolidado, o secretário de Cultura do Rio de Janeiro diz que “a expectativa foi batida de longe”:
— A gente esperava metade do que teve. Para o Festival Sotaque Carregado (do DJ MAM, no Museu de Arte do Rio e na Praça Quinze), por exemplo, a gente esperava distribuir quatro mil ingressos. Acabamos distribuindo dez mil. O Panorama de Dança foi completamente lotado. O Teatro Oficina está com a temporada esgotada. Foi realmente um sucesso. E a segurança funcionou muito bem em todos os polos, na Lapa, na Praça Tiradentes, na Praça Quinze, as pessoas se sentiram confortáveis para retirar os celulares do bolso e registrar tudo — diz. — Conseguimos garantir uma fluidez pela cidade. E isso não pode parar. Não só foi um grande ensaio operacional para a Semana do ano que vem, como também para fazermos mais coisas ao longo do ano.
O DJ MAM diz que “os resultados superaram todas as expectativas”.
— A programação dos 20 anos do Festival Sotaque Carregado começou na manhã de sexta-feira, com a abertura da exposição no MAR. Depois fomos para o palco na Praça Quinze. A estimativa é que umas cinco mil pessoas passaram por lá — comenta. — A programação no MAR vai até domingo, quando vamos fazer a distribuição de doces de Cosme e Damião, e ter uma vivência indígena com Tupãzinho Guarani, a partir das 11h da manhã.
E na Semana de Arte do Rio, a movimentação no fim de semana chegou até ao Circuito de Ateliês do Centro.
— Sobre o que vi no meu ateliê e ouvindo também outros artistas, muitos visitantes que já chegavam com o mapa do Circuito na mão, já sabendo o que queriam ver, um público bastante interessado em saber dos processos. Muita gente veio fazer algum programa no Centro e aproveitou para conhecer os ateliês. Essa renovação certamente traz mais público, foi muito bom ver esse movimento — comenta Fernanda Sattamini, artista visual e idealizadora do Circuito de Ateliês, que mantém seu espaço no Edifício Churchill, na avenida de mesmo nome.
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Além de seu estande na ArtRio, a Gentil Carioca viveu dias intensos com a abertura de "Nome próprio", individual de Agrade Camíz, e da intervenção de Marcela Cantuária na Parede Gentil, na sede da galeria, na Rua Gonçalves Lédo, no Centro, no sábado, quando também foram celebrados os 23 anos do espaço. Próximo, no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica (CMAHO), recebeu a exposição "Ballet noir: O pós-virtuosismo", de Bastardo, um dos artistas da galeria, e na Praça Tiradentes, a instalação Solaroca, do coletivo Opavivará! em parceria da Gentil e Alalaô Kiosk, recebeu DJs, feira de discos e música ao vivo.
— A feira foi incrível, recebemos gente do board da Tate, do MoMA, colecionadores dos EUA, da Inglaterra. Aí tivemos as aberturas, um sucesso enorme. A Solaroca ficou lotada também, e neste final de semana vai receber progrmação da Flup (Festa Literária das Periferias). Foi uma grande demonstração de força da cultura a ArtRio e a Semana de Arte juntas — avalia Marcio Botner, um dos sócios da Gentil. (Colaborou Nelson Gobbi)