Setor que movimenta 8% da economia precisa superar gargalos em infraestrutura e segurança para atrair mais investimentos privados
O desafio do setor agora é converter o fluxo recorde de visitantes em um motor duradouro para a economia, superando entraves históricos e investindo em qualificação e tecnologia
Um dos segmentos mais impactados pela pandemia, o turismo brasileiro vem se recuperando de forma consistente. De acordo com análise da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o fluxo de visitantes estrangeiros no país saltou de 6,3 milhões para 9,3 milhões entre 2019 e 2025. O avanço de 46% supera o desempenho de nações como Japão (34%), Portugal (20%), Espanha (16%) e França (12%), enquanto vizinhos sul-americanos como Argentina e Peru registraram retração de 23% e 22%, respectivamente.
Responsável por cerca de 8% do Produto Interno Bruto (PIB), o setor tem agora a oportunidade de converter o otimismo de curto prazo em um ciclo de desenvolvimento sustentável. Na visão de Daniel Nepomuceno, diretor de atração e investimentos da ONU Turismo, o país possui todas as precondições para expandir essa fatia nos próximos anos. Contudo, o executivo ressalta que o desafio central é garantir que esse fluxo recorde não seja apenas um pico passageiro, mas o ponto de partida para consolidar a atividade como motor econômico nacional, superando entraves estruturais históricos.
“Para que o Brasil alcance ou supere a média global de participação do turismo no PIB — que em vários países desenvolvidos ultrapassa 10% —, a relação entre governos e empresários não pode ser de cobrança isolada, mas de parceria estratégica”, avalia Adriana Noguti, diretora de comunicação e marketing da RTSC, holding de investimentos nos setores imobiliário, turístico e de energia renovável.
Parceria efetiva
Na avaliação de Nepomuceno e de especialistas do setor, a maturidade da atividade depende de um alinhamento preciso entre as atribuições da iniciativa privada e as responsabilidades do Estado. “O setor público atua como o grande viabilizador do ecossistema turístico. Sem políticas públicas consistentes e investimentos em bens públicos, o setor privado encontra barreiras para crescer”, aponta o diretor da ONU Turismo.
Os modelos globais de sucesso mostram que ferramentas como Organizações de Gestão de Destinos (DMOs) integradas, parcerias público-privadas (PPPs) bem estruturadas para o manejo sustentável de parques nacionais e o compartilhamento de dados em tempo real são cruciais para transformar potencial latente em riqueza concreta.
Para destravar esses gargalos históricos, o poder público precisa atuar com urgência em frentes prioritárias:
Conectividade aérea e infraestrutura: Ampliar acordos de céus abertos, atrair companhias low-cost, desonerar custos operacionais (com foco na alíquota e incidência tributária sobre o querosene de aviação, o QAV) e aprimorar aeroportos secundários, portos de cruzeiros e rodovias com padrões internacionais.
Segurança pública e Marca Brasil: Fortalecer o policiamento ostensivo e inteligência em corredores turísticos, além de manter uma promoção internacional continuada via Embratur — desvinculando o país de crises conjunturais e destacando aspectos como biodiversidade, cultura e sustentabilidade.
Ambiente de negócios: Garantir regulamentação clara na Reforma Tributária para evitar alíquotas proibitivas sobre hotelaria e serviços, expandir programas de e-visa (visto eletrônico) para mercados de alto poder aquisitivo e fortalecer linhas de crédito públicas, como o Fundo Geral de Turismo (Fungetur).
“A manutenção desse ritmo favorável dependerá da capacidade do país de estruturar hoje o crescimento das próximas décadas”, enfatiza Nepomuceno.
Pilares para o crescimento
Conforme aponta Noguti, enquanto o Estado constrói a infraestrutura básica, cabe à iniciativa privada entregar o valor percebido pelo visitante, convertendo atrativos naturais em produtos turísticos de excelência. “Para manter essa rota de crescimento sustentado, as empresas do ecossistema precisam fortalecer o compromisso com a melhoria dos serviços e o desenvolvimento dos destinos, agregando mais valor à experiência do usuário”, afirma.
A executiva e analistas do setor destacam eixos estratégicos para essa consolidação:
Diversificação da oferta e ESG: Reduzir a dependência do modelo “sol e praia” ao investir em ecoturismo de luxo, turismo gastronômico, cultural, de aventura e no segmento MICE (eventos, feiras e congressos), acompanhado pela modernização hoteleira e adoção de práticas ESG.
Capacitação de mão de obra: Elevar a reconhecida hospitalidade brasileira a padrões internacionais por meio de treinamento operacional contínuo, capacitação em idiomas, atendimento inclusivo para equipes de recepção, guias e gastronomia, e criação de carreiras atrativas no setor.
Transição digital: Incorporar inteligência artificial para precificação dinâmica e personalização de roteiros, além de promover a digitalização de pequenas e médias empresas para integrá-las às grandes plataformas globais de distribuição.
Matriz de responsabilidades: Estado x Iniciativa Privada
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