QUARTA-FEIRA, 30 DE SETEMBRO DE 2026 - Horário 9:55

CONTEUDO DE MARCA - OGlobo - Presidente da Philip Morris Brasil destaca a importância da transformação nos negócios

Em painel do Fórum Agenda Global 2026, em Nova York, Miguel Matos diz ver “muita oportunidade” no Brasil e defende previsibilidade para o país atrair mais investimentos




Miguel Matos, presidente da Philip Morris Brasil.


O mercado está em constante evolução, e as empresas precisam acompanhar essas transformações para continuar relevantes. Para Miguel Matos, presidente da Philip Morris Brasil, a própria companhia representa essa mudança. “Nós, hoje, temos cerca de 42% da receita oriunda de produtos que não existiam há pouco mais de dez anos”, disse o executivo durante painel do Fórum Agenda Global 2026, realizado em Nova York, no último dia 21 de setembro.
A transformação é visível no balanço da Philip Morris International (PMI). No segundo trimestre de 2026, a receita líquida da companhia superou US$ 11 bilhões pela primeira vez, alta de 10,4% sobre o mesmo período de 2025. E o lucro por ação ajustado avançou 15,2%. O balanço divulgado em 22 de julho confirma os números de Matos e indica que os produtos sem fumaça, vendidos hoje em 109 mercados, responderam por quase metade da receita líquida no ano passado.
Há três meses à frente da operação da companhia no Brasil, o executivo português disse ver no país “muita oportunidade”, tanto em recursos naturais quanto em talentos. O olhar vem de anos em Bruxelas, na Bélgica, onde, segundo ele, o debate gira em torno de quem lidera a inovação. O desafio, na avaliação dele, é criar condições para que as companhias invistam e ajudem a economia brasileira a se desenvolver.
Regulação e investimento
Em relação às tarifas americanas, Matos disse que a PMI, presente em mais de 160 países, não sente o impacto direto. Após a autorização, pela Food and Drug Administration (FDA), agência norte-americana do Departamento de Saúde e Serviços Humanos, da comercialização de determinados produtos sem fumaça, a empresa investiu em fábricas nos estados de Kentucky, Colorado e Carolina do Norte para abastecer o mercado local. Já o tabaco colhido no Brasil segue para a Europa, fora do alcance das sobretaxas. “As tarifas não têm um impacto direto. Mas a regulação tem impacto direto nas nossas decisões de investimento enquanto empresa multinacional”, afirmou.
Sobre inteligência artificial (IA), Matos defendeu que as empresas e o Brasil tratem a tecnologia como oportunidade, apesar dos riscos. “Não se pode segurar o vento com as mãos”, disse. Para ele, o desafio é ir além do uso básico corporativo e investir em modelos de linguagem de grande escala (na sigla em inglês, LLMs) para o desenvolvimento de aplicações práticas para os negócios.
Na PMI, um uso promissor de IA é a análise preditiva da distribuição de produtos ilícitos — de acordo com o executivo, cerca de um terço dos cigarros consumidos no Brasil atualmente tem origem ilegal. Outra frente, em teste na Europa, são máquinas que identificam, no ponto de venda, se o comprador pode ser menor de idade e alertam o vendedor (leia mais na entrevista mais abaixo).
Matos também afirmou, durante o painel, que se surpreendeu com o grau de digitalização dos brasileiros, superior ao de muitos países europeus, e citou o Pix como exemplo. Na avaliação dele, essa base pode acelerar a transformação da indústria nacional.
Perguntado sobre qual deve ser a prioridade do país para aproveitar essa janela de transformação global e impulsionar sua competitividade, Matos escolheu uma palavra: intencionalidade. Segundo ele, companhias multinacionais, como a Philip Morris, precisam de confiança e previsibilidade para investir. “É preciso ser intencional nas políticas públicas, na regulação e naquilo que fazemos para atrair investimento”, disse. Na síntese do executivo, trata-se de “fazer um plano e executá-lo”.
De Aurora a Bolonha
Fora do Brasil, a PMI segue ampliando sua base industrial. Em julho, a companhia inaugurou em Aurora, no Colorado, seu primeiro complexo fabril construído do zero nos Estados Unidos. Anunciado em 2024 com orçamento de US$ 600 milhões, o projeto soma agora investimento previsto de US$ 1,2 bilhão entre 2024 e 2028, dos quais cerca de US$ 1 bilhão já foi aplicado.
Em julho, a companhia inaugurou em Aurora, no Colorado, seu primeiro complexo fabril construído do zero nos Estados Unidos.
Divulgação
O campus levou 19 meses entre o início das obras e a produção em escala comercial de sachês de nicotina, deve empregar diretamente cerca de 500 pessoas e vai abastecer também mercados da Ásia, da América Latina e do Caribe.
Segundo a empresa, os investimentos ligados aos EUA superam US$ 20 bilhões desde 2022, a maior parte em uma aquisição feita naquele ano, e o quadro de funcionários no país passou de algumas centenas para mais de 3 mil.
Na Itália, o acordo da companhia com o Ministério da Agricultura e a Coldiretti, principal confederação de produtores rurais do país, completou 15 anos em 2026. Desde 2011, a parceria gerou mais de 2 bilhões de euros em investimentos na cadeia do tabaco. Renovado em novembro de 2024 por dez anos, o acordo prevê até 1 bilhão de euros adicionais até 2034 e o compromisso de comprar, a cada ano, cerca de metade da produção italiana de tabaco em folha.
Polo industrial da empresa nos arredores de Bolonha, maior fábrica erguida na Itália nos últimos 25 anos, contou com investimento de mais de 1 bilhão de euros.
Divulgação
Essa cadeia agrícola está ligada ao polo industrial da empresa nos arredores de Bolonha, maior fábrica erguida na Itália nos últimos 25 anos, com investimento de mais de 1 bilhão de euros. Segundo a companhia, o complexo ocupa o equivalente a 33 estádios de futebol e responde por 0,5 ponto percentual do PIB italiano. Suas exportações pesam mais na balança comercial do país do que as de queijo, motos ou azeite de oliva.
Produtos sem fumaça: números da Philip Morris International
Arte G.Lab
------
“Queremos usar a IA para cooperar com as autoridades no combate aos produtos ilícitos”
Em entrevista, executivo detalha investimentos da companhia em tecnologia e alerta para os desafios impostos pelo mercado de cigarros ilegais ao país
O lisboeta Miguel Matos chegou de Bruxelas, na Bélgica, para assumir a presidência da Philip Morris Brasil há apenas três meses. Em entrevista realizada durante o Fórum Agenda Global 2026, em Nova York, Matos falou sobre o uso de tecnologia pela companhia, a regulamentação dos produtos sem fumaça em outros países, as operações nos Estados Unidos e na Itália e os planos da companhia para o Brasil.
O painel de que participou focou tecnologia. Como a Philip Morris tem usado a inovação na pesquisa e no desenvolvimento de novos produtos?
Miguel Matos — Temos um investimento de US$ 16 bilhões há 15 anos em um centro de pesquisa em Neuchâtel, na Suíça, onde temos mais de mil cientistas, médicos e acadêmicos que investigam a criação de novos produtos, com 100% de foco nos produtos sem fumaça.
A inteligência artificial foi outro tópico discutido durante o evento. De que forma a companhia lança mão desses recursos em suas operações?
Temos usado a IA em várias vertentes. Por um lado, fazemos o mesmo que muitas outras companhias, que é a adoção no dia a dia da gestão e de operações administrativas, o que já muda a maneira como trabalhamos, e ganhamos mais tempo para atividades de maior valor agregado. Mas estamos investindo em IA em uma frente, em que o Brasil também poderia se beneficiar, que pretende monitorar a restrição da venda de produtos de nicotina a apenas maiores de idade. Estamos testando na Europa algumas máquinas que detectam ali, no ponto de venda, se o comprador tem mais de 18 anos. É uma tecnologia que respeita a privacidade, mas emite um alerta ao vendedor de que aquele indivíduo talvez seja menor de idade, então ele deve pedir uma prova de identidade. Esse é um exemplo.
Outra frente é no combate aos produtos ilícitos, falsificados ou contrabandeados. Estimamos que um terço dos cigarros que são consumidos no Brasil tem origem ilícita. E a inteligência artificial pode servir também para mapear a atuação dessas redes e fornecer essa informação estratégica para que as autoridades possam agir. Nós temos que explorar mais também a colaboração com as próprias autoridades para que se consiga mitigar esse problema dos produtos ilícitos. Esse uso da IA tem sido uma aposta e vai continuar a ser.
Na sua opinião, que tipo de produto ilícito é o mais danoso ao seu mercado?
Tradicionalmente, temos os cigarros que vêm do Paraguai, mas também já vemos contrabando dos produtos sem fumaça, porque a procura por eles existe no Brasil. Nossas estimativas mostram que 10 milhões de usuários diariamente compram produtos sem fumaça no mercado ilícito. Também estimamos que o governo brasileiro perca R$ 13 bilhões por ano por causa dessa venda ilegal. Em países onde esses produtos são regulados, há regras claras de controle que protegem o consumidor e retiram do mercado essa fonte de arrecadação.
E como estão os investimentos da Philip Morris nos Estados Unidos, onde o mercado é regulado?
Aqui há uma situação bastante interessante, porque a FDA [Food and Drug Administration, a agência norte-americana do Departamento de Saúde e Serviços Humanos] autorizou a comercialização de determinados produtos sem fumaça. Após esse marco, a Philip Morris investiu na construção de plantas para a fabricação desses produtos, com unidades no Colorado, Kentucky e Carolina do Norte.
Na Itália, o mercado de produtos sem fumaça também é regulado. Como estão os investimentos da companhia por lá?
A Itália, hoje em dia, é o maior exportador da Europa de tabaco aquecido. A fábrica da Philip Morris localizada naquele país teve investimentos muito significativos nos últimos anos. Trata-se também de um governo que apoia essa transformação. E é interessante o fato que o Brasil exporta o tabaco in natura para a Itália produzir unidades de tabaco aquecido. Se esses produtos fossem regulados no Brasil, poderíamos ter uma fábrica dedicada a esse segmento, o que poderia gerar oportunidades.
A Argentina recentemente aprovou os produtos sem fumaça para consumo. Quais os planos para atender esse novo mercado na América do Sul? Qual fábrica vai ser acionada?
A ideia na Argentina é primeiramente disponibilizar esses produtos apenas para consumidores locais. Ainda não definimos o portfólio exato, mas seguramente a fábrica da Itália será candidata a abastecer esse mercado na América do Sul. Mas também temos unidades de produção na Grécia, Romênia e Coreia do Sul. Se houvesse uma fábrica no Brasil, poderia ser uma forte candidata para exportar para esse país vizinho certamente.
© 2014 Todos os direitos reservados a O Globo e Agência O Globo. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização.