Debates reuniram executivos e especialistas em torno do avanço das importações diretas e indiretas, da sobrecapacidade global e dos desafios de competitividade para a produção brasileira
Painel "Competitividade Sistêmica: Como alcançá-la?": O cofundador da FCGI, Ricardo Geromel, o CEO da Gerdau, Gustavo Werneck, e o CEO da Arko International, Thiago de Aragão, durante debate sobre os desafios estruturais e os caminhos para o setor.
O Congresso Aço Brasil 2026 reuniu, nos dias 29 e 30 de setembro, em São Paulo, lideranças da indústria, especialistas e representantes do governo em torno de uma agenda de fortalecimento da produção nacional. Ao longo dos debates, o setor destacou o potencial do Brasil para ampliar investimentos, empregos e consumo de aço, mas apontou que, para isso, será preciso avançar em competitividade, defesa comercial e condições mais favoráveis para a indústria.
A discussão passou pelo cenário internacional, marcado pela sobrecapacidade global e pela expansão chinesa, mas também pelo potencial de crescimento do consumo de aço no Brasil. Com apenas 122,5 kg de produtos de aço consumidos por habitante em 2025, abaixo da média mundial de 209 kg, os participantes destacaram que há espaço para ampliar o consumo no país. O desafio é recuperar e desenvolver o mercado interno, garantindo que esse crescimento seja atendido prioritariamente pela produção nacional.
Ao longo da programação, um dos principais pontos de atenção foi a mudança no perfil da concorrência externa. Enquanto as importações diretas de aço recuaram nos primeiros oito meses do ano, o volume de aço incorporado a produtos manufaturados importados avançou, sinalizando que a pressão sobre a indústria se desloca também para setores consumidores do metal.
Mais do que discutir o desempenho da indústria do aço o congresso serviu como espaço para tratar de questões que afetam toda a indústria de transformação. Defesa comercial, custo de energia e gás, conteúdo local, produtividade, investimentos e retomada do consumo interno apareceram entre os principais pontos de uma agenda voltada ao fortalecimento da produção brasileira.
Ações do governo e perspectivas
Participando virtualmente do congresso, o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, destacou o reflexo das medidas de defesa comercial. Alckmin ressaltou ainda que a reforma tributária poderá elevar em 15% os investimentos e em 17% as exportações, além de citar a ampliação de 240% no crédito para o setor metalúrgico e a futura liberação de R$ 22 bilhões a juros de 6% para máquinas e novos aportes.
Nos oito primeiros meses do ano, a produção brasileira de aço bruto caiu 1,8%, para 21,775 milhões de toneladas. As vendas internas avançaram 0,3%, enquanto o consumo aparente recuou 4,2%, para 17,418 milhões. As importações diretas caíram 20,2%, para 3,693 milhões de toneladas.
Os dados apresentados pelo Instituto Aço Brasil mostram, porém, uma mudança no perfil da concorrência. A importação de aço incorporado a bens manufaturados subiu 19,9% de janeiro a agosto, de 4,008 milhões para 4,806 milhões de toneladas. Em automóveis, o avanço foi de 37,3%. Também cresceram as importações indiretas em máquinas e equipamentos, eletrodomésticos, máquinas para construção civil e estruturas, móveis e embalagens.
Na projeção anualizada da entidade, as importações diretas e indiretas devem somar 12,1 milhões de toneladas em 2026, contra uma média de 5,2 milhões entre 2000 e 2019. André Gerdau Johannpeter, presidente do Conselho Diretor do Aço Brasil, afirmou que “as medidas de defesa ajudam, influenciaram, mas o volume de importação ainda é grande”, acrescentando que há uma diferença importante em relação a momentos anteriores: “Uma coisa é você ter aumento de importações com o país crescendo. Outra coisa é você ter aumento de importações sem crescer o consumo”.
China amplia pressão global
Segundo dados apresentados no encontro, a sobrecapacidade mundial chega a 624 milhões de toneladas e pode alcançar 721 milhões até 2027, segundo projeção da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). A China responde sozinha por cerca de 306 milhões de toneladas desse excedente e produz aproximadamente 52% do aço mundial. Para Marcos Troyjo, economista, cientista político e diplomata, o cenário internacional mudou. “Há 20 anos, a gente discutia globalização, mas não estamos mais nesse mundo”, afirmou, ao destacar o peso crescente da geopolítica nas decisões econômicas.
Painel "China – a grande ameaça": André B. Gerdau Johannpeter, presidente do Conselho Diretor do Aço Brasil e Jorge Guajardo, sócio do DGA Group e ex-embaixador do México na China, debateram os impactos da sobrecapacidade global e da expansão chinesa sobre a indústria nacional
Leo Orestes
No painel sobre a China, o ex-embaixador do México na China, Jorge Guajardo, trouxe uma análise profunda sobre os impactos da expansão chinesa, impulsionada por décadas de urbanização e construção de capacidade industrial. O diplomata destacou que a previsão para 2026 é de que a China exporte 12 milhões de carros para o mercado global, alertando que, desse total, nenhum é produzido com peças brasileiras, embora a cadeia utilize insumos indiretos, como o petróleo bruto brasileiro exportado para a produção de polímeros. Para Guajardo, a continuidade desse movimento pode levar à desindustrialização acelerada de outros mercados, a exemplo do que ocorreu nos Estados Unidos com o histórico “China Shock”, que resultou na perda de milhões de empregos industriais americanos.
Guajardo também pontuou que a China enfrenta hoje uma forte mudança demográfica e o esgotamento de seu antigo modelo de crescimento baseado na construção de infraestrutura em massa. Com a taxa de fecundidade bem abaixo do nível de reposição e a desaceleração do ritmo de urbanização, ele enfatizou: “A China não tem mais motor de crescimento econômico”. Por fim, o ex-embaixador ressaltou que governos e empresas precisam tratar o tema com máxima prioridade estratégica diante dos riscos de dependência e perda de competitividade global.
Competitividade vai além do aço
O debate levou os participantes a uma agenda que não se limita apenas à defesa comercial. Gustavo Werneck, CEO da Gerdau, resumiu a necessidade de articulação entre os diferentes segmentos: “Se cada um defender os seus próprios interesses, a gente não vai conseguir sair do lugar”. Para Werneck, a integração da cadeia e o aumento do consumo de aço passam também pela forma como os empresários dialogam com o poder público.
Everton Negresiolo, CEO da ArcelorMittal Aços Longos América Latina, citou logística, energia, gás natural e custo de capital como obstáculos à competitividade. Segundo ele, o gás brasileiro pode custar de US$ 15 a US$ 18 por milhão de BTU, enquanto o valor varia de US$ 2 a US$ 4 na Argentina.
O conteúdo local também entrou no debate. Neste contexto, Marcelo Chara, presidente da Usiminas e conselheiro do Instituto Aço Brasil, defendeu uma política de “proteção estratégica” para evitar que investimentos no país resultem apenas em operações de montagem com componentes importados. “É preciso garantir que os investimentos gerem demanda para fornecedores e empregos ao longo da cadeia nacional”, afirmou.
Rodrigo Villela, da Aperam South America & Renewables, destacou produtividade e eficiência energética. Para ele, o momento atual não deve pautar decisões de longo prazo: “O cenário não é positivo, mas não podemos acreditar que o presente vai representar o futuro”, disse.
Espaço para crescer
Painel "Crescimento econômico: indústria forte, PIB forte": A jornalista e moderadora Juliana Rosa com os debatedores José Ricardo Roriz Coelho (Abiplast), Everton Negresiolo (ArcelorMittal) e Igor Calvet (Anfavea) durante discussão sobre produtividade e gargalos estruturais
Leo Orestes
Apesar da pressão externa, o setor vê espaço para ampliar a produção brasileira. O Aço Brasil estima que elevar a utilização das usinas de 66% para 79% poderia gerar cerca de 19,6 mil empregos diretos. Para Marco Polo de Mello Lopes, presidente-executivo do Aço Brasil, a agenda passa por três frentes: manutenção dos mecanismos de defesa comercial, aumento da competitividade das cadeias consumidoras de aço e fortalecimento do conteúdo local. Ele destacou a Coalizão Indústria, criada em 2018 e formada por diferentes elos impactados pelas importações, que atuam de forma conjunta para enfrentar os desafios do setor. “A indústria do aço é moderna, imprescindível e requer tratamento prioritário”, disse.
Painel "A visão dos CEOs": O presidente-executivo do Instituto Aço Brasil, Marco Polo de Mello Lopes, ao lado de Jorge Oliveira (ArcelorMittal), Marcelo Chara (Usiminas), Gustavo Werneck (Gerdau), e Rodrigo Villela (Aperam) durante o debate de encerramento do congresso, além da jornalista Vanessa Cochi
Leo Orestes
No segundo dia, o jornalista William Waack levou ao congresso a discussão sobre o ambiente político e econômico pós-eleições. Ao tratar do endividamento público, resumiu: “Dívidas esmagam”, acrescentando que não é possível pensar em prosperidade sem coordenação das dívidas públicas. No encerramento, a mensagem dos executivos foi de aposta no longo prazo. Rodrigo Villela concluiu: “Temos que trabalhar em cadeia e evitar que o produto importado afete nossa indústria. Precisamos retomar a industrialização do país. Temos competência, as pessoas certas e as ferramentas para garantir que vamos crescer fortes”.